Uma nova relação com a comida

Alimentar-se vai muito além de ingerir alimentos e a nutrição comportamental pretende modificar esse tradicional ponto de vista

“Perca 10 Kg em uma semana com a dieta das frutas”, “fique linda para o verão com a dieta da lua”, “a nova dieta low carb promete a perda de peso de forma mais rápida e fácil”.

DIETA, uma palavra pequena e que caiu no gosto e no vocabulário do público devido ao constante discurso de exaltação da beleza e magreza pela sociedade. Com certeza, você conhece uma pessoa ou você mesmo está fazendo dieta nesse exato momento, não é mesmo? No entanto, essa prática vem acompanhada por diversas restrições e o sentimento de que se alimentar nem sempre é uma atividade prazerosa surge toda vez que chega a hora de uma nova refeição.

Mas, como comer vai muito além de uma necessidade fisiológica, em 2014, 4 nutricionistas criaram o Instituto de Nutrição Comportamental com o objetivo de desmistificar o processo de alimentação e tornar essa prática o mais saudável possível, não apenas no sentido físico, como também no psicológico. “A nutrição comportamental veio para agregar e ajudar muito (as pessoas) a terem uma relação muito mais favorável, afetuosa, acolhedora com a sua própria alimentação.”, conta a psicóloga comportamental, Luciana C. Cardoso Lombardi.

Como funciona a nutrição comportamental?

Deixando de lado restrições e planos alimentares, a nutrição comportamental foca no real ato de se alimentar e entender todos os fatores que interferem no processo de alimentação. “A nutrição comportamental traz uma visão mais ampla, ou seja, considera também os aspectos emocionais, culturais, sociais que envolvem o ato de comer.”, ressalta a nutricionista com abordagem comportamental, Fabiane R. Guimarães de Oliveira.

A profissional ainda conta que trabalhou por 10 anos com o método tradicional da nutrição, com prescrição de planos alimentares. Após algum tempo, percebeu que os seus paciente emagreciam, mas recuperavam o peso novamente, gerando um sentimento de frustração nos mesmos. Assim, ela decidiu alterar o seu modo de atendimento, abolindo o método prescritivo e concentrando-se em entender os motivos e fatores que envolvem a alimentação de cada um dos seus pacientes.

União entre psicologia e nutrição comportamental:

O comportamento alimentar, como já dissemos anteriormente, transpassa apenas as razões fisiológicas do corpo. “O comportamento alimentar é influenciado por múltiplos fatores: aspectos genéticos, fisiológicos, psicológicos e sociais.”, relata Luciana. Assim, para que esse processo seja ainda mais completo, o trabalho de um profissional da psicologia é essencial. A especialista conta que esse comportamento está ligado a crenças disfuncionais que aprendemos durante toda a vida e que para melhorarmos as nossas atitudes, primeiro é preciso entender qual é a nossa relação com a comida e como isso afeta o nosso comportamento diante os alimentos que consumimos.

Dessa forma, a nutrição e a psicologia se unem para explorar todos os campos existentes do ser humano, com a finalidade de entender o porquê da existência desse comportamento e criar estratégicas que melhorem o vínculo do paciente com os alimentos e aumentando a chance de sucesso do tratamento. Esta união é ainda mais importante já que, muitas vezes, o paciente vêm acompanhado por uma grande carga emocional, como traumas, que afetam o modo de alimentação dele.

Qual é o principal público que procura a nutrição comportamental?

Em conversa com as duas profissionais, ambas relataram que atendem todos os tipos de públicos, porém o maior continua sendo as mulheres, pois já realizaram diversos estilos de dietas e se sentem frustradas com os resultados, procurando os consultórios em busca de uma nova forma de ver o processo alimentar.

Outro público que vêm crescendo nos consultórios de nutricionista e psicólogos são as pessoas que possuem transtornos alimentares. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, 70 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com algum tipo de transtorno alimentar. A psicóloga Luciana conta que o desencadeamento dos transtornos alimentares é multifatorial e envolve questões biológicas, psicológicas e socioculturais. Além disso, eles são mantidos pela insatisfação do corpo.

A profissional ainda ressalta a seriedade do problema, que pode causar graves consequências na vida do paciente. “O transtorno alimentar é uma doença psiquiátrica, ela é muito além de uma dificuldade com comida”, conta. Luciana também enfatiza que nesse caso, o paciente precisa ser acompanhado por psiquiatra, psicólogo e nutricionista que tenham uma abordagem comportamental. “Um plano alimentar nestas situações podem agravar mais o transtorno alimentar”, complementa Fabiane.

Como funciona o tratamento?

Na parte nutricional, Fabiane conta que, em um primeiro momento, faz um diagnóstico inicial a partir das situações relatadas pelo paciente. Depois, são feitas consultas semanais ou quinzenais para discussão das situações vividas por ele. “É uma sessão terapêutica, ou seja, o profissional é o terapeuta nutricional (TN), então há muita escuta ativa, empatia e questionamentos para que o mesmo encontre seus problemas e reflita em como melhorar. O TN não dá respostas prontas, cardápios e, sim, questiona e apoia o cliente no processo.”, relata.

A profissional ainda trabalha com os princípios de alimentação intuitiva, que se inicia pelo reconhecimento da fome física e saciedade, além do prazer em comer, entre outros fatores. Como também dedica-se ao Mindful eating, que de acordo com Fabiane, é muito mais amplo do que comer devagar, é comer com atenção plena.

Já em relação a parte psicológica, Luciana relata que o primeiro passo é entender a relação que a pessoa tem com a comida e como funciona o seu comportamento alimentar. Assim, acolhe-la para que ela entenda que tem apoio em uma sociedade que te qualifica pelo seu peso e o quanto você come.

Dessa maneira, é feita uma leitura de vida do paciente “é o entendimento da vida toda dessa pessoa, desde quando ela era criança, como ela se relacionava com a comida, como era história da família dela, então a gente faz um amplo levantamento de informações.”, reforça.

Após este primeiro passo, é feita uma entrevista motivacional com o paciente, trabalhando os prós e contras de se manter naquele comportamento, desenvolvendo estratégias cognitivas e comportamentais para estabelecer uma mudança. Essas estratégias são praticadas pelo paciente e trabalhadas semanalmente nas consultas. Essas atividades vão ajudando a pessoa a criar novas habilidades de lidar com as situações da vida.

“Então, a gente ajuda esse cliente a recuperar a autoestima, a autoconfiança, a fazer menos julgamento a respeito dele e das pessoas, a ser menos autocrítico com ele mesmo, a entender que ele precisa se reconhecer dentre outros valores, que ele não é só um corpo, que ele tem outros valores pessoais e que aquele peso não o representa.”, ressalta Luciana.

Dicas para quem deseja se alimentar de forma mais consciente:

A nutricionista com abordagem comportamental Fabiane dá dicas de como iniciar um comportamento mais consciente em cada refeição.

1) Pare de fazer dietas e de julgar os alimentos em bons e ruins. Isso só aumenta a sua vontade pelos “ruins” e a sua culpa após come-los.

2) Escute seu corpo, respeite a sua fome, sua saciedade e suas vontades, coma a comida que te dá prazer. O nosso corpo é sábio e quando você legaliza a comida, permitindo-se comer ouvindo o seu corpo, ele não vai pedir apenas alimentos menos saudáveis.

3) Coma alimentos o mais naturais possíveis, igual nossas avós comiam.

4) Coma sentado, em um ambiente tranquilo, sem distrações (celular, TV). Aprecie a sua comida, pause os talheres a cada garfada.

5) Verifique no meio da refeição se ainda está com fome, e se já tiver saciado e satisfeito pare! Sim, as vezes jogar comida no lixo é melhor que colocar para dentro sem necessidade. Você pode comer de tudo, mas não precisa comer tudo. Se amanhã tiver vontade, coma novamente, e assim por diante, o medo da escassez nos faz comer além do que precisamos.

6) Busque ajuda para identificar e melhorar as situações que te fazem comer devido fatores emocionais.

Extra: Exercite-se por prazer, busque uma atividade que te faça bem e que você gosta. Não para emagrecer, pois isso é uma consequência!

*Foto:  nutricionista com abordagem comportamental Fabiane R. Guimarães de Oliveira e psicóloga comportamental Luciana C. Cardoso Lombardi, respectivamente. 



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